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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NO CAMINHO: Não havia ninguém melhor?



NÃO HAVIA NINGÉM MELHOR PARA FALAR DE VITÓRIA SOBRE A MORTE?

Marcos 16:1-29

O Evangelho é tão divino que se tivesse sido fabricado como história, teríamos ainda assim que adorar a mente divina que o tivesse inventado.

A história toda jamais poderia ser “inventada”. Ela violenta toda a lógica humana quando se trata do objetivo de “vender uma verdade”.

Ao contrário, é a total falta de tentativa de convencimento na narrativa que a ela empresta total credibilidade. Entretanto, trata-se do estabelecimento da credibilidade pela vida de vidas transformadas e pela sua total falta de credibilidade como “testemunhas” humanamente críveis.

Ou seja: é o anti-testemunhal marketeiro presente no Evangelho aquilo que o põe numa categoria completamente nova.

Os exemplos disso são praticamente todo o Evangelho. Mas minha vontade aqui não é escrever um livro—e que longo e farto livro seria esse!—mas apenas oferecer uma simples ilustração da tese.

O texto de Marcos em epígrafe é uma ótima ilustração, até porque trata-se de uma narrativa sucinta e que em Mateus, Lucas e João têm “expansões” que em Marcos são apenas pontuais em sua constituição.

O que me interessa aqui são as testemunhas do fato mais fundamental da fé. Se fossemos usar algum critério de marketabilidade nenhuma delas seria escolhida. O Duda Mendonça não as aprovaria.

1. Mulheres nervosas vão cedo ao sepulcro e voltam assombradas dizendo terem tido uma visão de um jovem anjo que lhes disse que Jesus havia ressuscitado. Portadoras de uma percepção e ainda de um “recado” que deveria ser dado aos discípulos—incluindo Pedro, que havia traído a Jesus pouco mais de quarenta e oito horas antes—, tomadas de medo e assombro, nada disseram a ninguém. Que desperdício de informação.

2. Madalena, ex-protituta e ex-possessa, também presente no grupo das mulheres nervosas, ficou um pouco mais no jardim da tumba. Jesus aparece a ela. Conversam e ela explode em amor aflito por conte-Lo com suas próprias mãos. Ouve Dele a recomendação de que vá “contar aos discípulos”. Ela foi, mas ninguém creu nela. Com aquele histórico de descontrole emocional e afetivo, certamente Madalena não poderia ter sido escolhida como testemunha crível.

3. Dois homens caminhavam ao entardecer daquele dia. Jesus aparece a eles “em outra forma”. Lucas expande o ocorrido. Marcos faz dele uma “pílula histórica”. Eles voltam e narram o que lhes havia acontecido, mas o problema da “forma” inviabilizava o testemunho. Também não creram neles. Além disso, afinal, quem eram eles?

Finalmente, o próprio Jesus apareceu aos “onze” e censurou-lhes a dureza de coração, por não haverem crido naqueles que já o haviam visto ressuscitado dentro os mortos.

Se usássemos os critérios atuais, teriámos uma bela desculpa:

“Mas Senhor, o Senhor escolheu muito mal. Abusou de nossa credulidade”—certamente diriam os marketeiros cristãos!

Minha questão é uma só: por que Deus dificultou tanto a credibilidade do fato mais importante do Evangelho?

Afinal, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé, e também somos tidos por falsas testemunhas de Deus, pois asseveramos que Ele ressuscitou a Cristo, a quem ele não ressuscitou—se é certo que os mortos não ressuscitam!

Mas cremos que Jesus ressuscitou dos mortos, só não entendemos é porque as testemunhas oculares de sua ressurreição eram tão pouco críveis.

Se o critério fosse o da impressionabilidade incontestável, César, o Imperador, tinha que ter sido aquele a quem o Ressuscitado deveria ter visitado primeiro, em Roma.

Se o critério fosse o da oficialidade da fé, então o Sumo-Sacerdote Caifás deveria ter sido chocado pela aparição Daquele ao qual ele havia decidido que tinha que morrer.

Se o critério fosse o da legalidade, certamente Pilatos deveria ter sido agraciado com a perturbação da visão do Ressuscitado. Afinal, sua esposa já havia até mesmo sonhado com Jesus.

Se o critério fosse o do escracho político, Herodes deveria ter sido eleito como alvo ideal.

Se o critério fosse o da pureza de sentimentos e de continuidade histórica, Maria, a mãe de Jesus, seria uma candidata imbatível a receber a manifestação.

Mas não foi assim...

Mulheres nervosas, uma ex-prostituta, dois desconhecidos que ainda o viram “em outra forma”, são aqueles que recebem a manifestação.

Por que?

É que o Evangelho é divino em tudo. E é coerente em si mesmo em todas as coisas. Evangelho é Boa Nova da Graça de Deus. Anuncia que Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo. E a proposta que o Evangelho carrega é coerente com a não credibilidade moral, psicológica e histórica de seus testemunhas.

Que ironia. Até mesmo na hora das horas não depende nem de quem quer, nem de quem corre e nem de quem merece. E mais: Deus é um Deus arriscado. Parece que Sua especialidade é sempre trabalhar com o inviável. Existe sempre uma porta para a lógica do escape—seja intelectual, psicológico, moral, político ou religioso—para quem deseja uma desculpa de descrença.

Assim a mais fantástica de todas as mensagens é veiculada pelas menos críveis de todas as testemunhas.

Testemunhos verdadeiros. Testemunhas mais que relativas ante a percepção dos preconceituosos sentidos humanos. Essa é a ironia.

A impressão que se tem é que Deus faz de propósito. Revela as maravilhas a quem não carrega credibilidade. Deus torna tudo mais difícil para Ele mesmo. Por que não usa caminhos mais fáceis?

Paira sempre uma dúvida em tudo. Tem-se sempre que passar por cima de preconceitos e presunções—sejam elas de que natureza sejam—a fim de se crer.

Ao final, depois de censurar-lhes a dureza de coração Jesus os envia ao mundo para pregar a toda criatura.

Gente sem credibilidade tem que anunciar a mais incrível de todas as mensagens a todo tipo de gente.

E por que?

Na minha opinião para que o processo inteiro seja sempre aquele que é fruto da graça e que se expressa por meio da fé.

Desse modo, ninguém deveria se gloriar. Nem quem prega e nem quem crê.

O problema é que os critérios se transformaram em outros.

Hoje em dia nenhuma organização cristã confiaria tão importante mensagem a seres parecidos com aqueles que Jesus escolheu para proclamarem Sua Ressurreição.

A “igreja” proíbe as pessoas de falarem por muito menos. Calam a boca dos que amam a Deus por quase nada. Desacreditam a mensagem em razão da relatividade do mensageiro toda hora. Assim, se tivesse dependido dos critérios atuais, as testemunhas da Ressurreição seriam o Imperador, o Sumo-Sacerdote, o Rei impostor ou, na melhor das hipóteses, uns poucos simpatizantes mas que eram importantes membro do Sinédrio, como Nicodemos ou José de Arimateia. A esses Deus reservou apenas o papel de carregar o corpo morto e deixa-lo numa tumba.

Os que viram a ressurreição, no entanto, não passariam nos nossos exames psicotécnicos e muito menos de credibilidade, seja moral, seja de estabilidade emocional, seja de bons antecedentes.

Deus, no entanto, decidiu diferente: o testemunho verdadeiro seria sempre pregado por testemunhas mais que relativizadas. E a razão é que Deus escolheu para falar de Sua vitoria sobre a morte somente aqueles que são apaixonados pela vida.

Mesmo que na existência tenham se fragilizado na busca do que fosse vida.

Ao final, entretanto, o que se ouvirá será sempre a mesma coisa: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor!

Caio Fábio

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